quinta-feira, 21 de julho de 2016

Amar: a vilania do século?

Corpos quentes, corações frios. Amar, seria agora, uma vilania?


"Tornou-se gélido o coração que um dia fora puro calor." ~Greyce Lene


Tenho fome. E cada dia tenho mais. Mas não é uma fome ou uma sede qualquer.
É uma fome voraz, de afeto, de carinho, de permissão.  De pizza, batata frita, filmes novos no netflix e muito sexo de qualidade também.

Talvez você me pergunte: Como assim permissão?

Eu explico, se tem tem algo que me deixa bastante triste, é ver o quanto as pessoas se distanciaram não apenas umas das outras, mas de si mesmas. Temem o próprio sentir. 
Para disfarçar o medo – ou a covardia – fazem do amor uma coisa de trouxa.  Escondem-se, cada dia mais, atrás de mascaras. Tornam-se algozes não apenas do outro, mas de si mesmo. Condenando-se a uma caminhada solitária.

Usam-se, abusam-se e descartam-se  como objetos. Chamam isso de liberdade. Tempos modernos né?  Estranho usar essa liberdade para no fim nos tornarmos prisioneiros do medo.

O medo de amar. O medo de confiar. O medo de se entregar. O medo de ser amado.  O medo de querer demais. O medo da dor. O medo do sofrimento. O medo da decepção.

Em um mundo de desapegos, de relações fluidas e fugazes, ter sentimento é quase como ter uma doença contagiosa. 





Certo dia, conversando com uma amiga que mora no nordeste,  ela me disse:

“Estou cada dia mais fria e menos feliz. Meu problema é que não confio (...) Tenho medo de me entregar. Eu acho que não sei amar, sei lá...”

Eu respondi com o meu coração: “Eu entendo amiga.  E te faço a mesma pergunta que eu faço a mim mesma sempre: De que adianta a vida a tua frente, todo o horizonte de possibilidades, se tu não se permitir viver realmente?”

Achei interessante ela dizer “acho que não sei amar”, não porque eu acredite que ela realmente não saiba, e sim porque percebo a imensa dificuldade de muitas pessoas em lidar com os afetos.

É tão mais simples lidar com o tesão, com o desejo carnal, com o prazer, com o sexo.

Beijos quentes e uma foda selvagem são menos complexos que um cafuné de conchinha.

É fácil gemer aos gritos, falar sacanagem ao pé do ouvido, mas (quase) ninguém sabe o que fazer com aquele carinho espontâneo que quando se percebe, escapou pelos lábios.

Queremos corpos suados, mas não queremos a responsabilidade de um coração pulsante.

Amar é quase uma vilania.

Quer ser superior? Seja frio. Não se entregue. Se faça de difícil. Não demonstre que se importa.

Somos bombardeados com isso quase como se fossem palavras de ordem em um protesto.

Falamos tanto sobre a autovalorização e o amor-próprio e aos poucos, esquecemos, cada dia mais, de amar o próximo.

Polarizamos em vez de equilibrarmos.

Tal qual o mito de Narciso, somos vitimas do nosso orgulho, da nossa vaidade e de nosso egocentrismo.

Onde nos perdemos?

Acredito que o amor é único. E se manifesta de maneira igualmente singular para todos. Não é uma receitinha de bolo.

Ás vezes a vida bate com um pouco mais de força, e nesses momentos, eu já fraquejei. Quis ser durona. Mas não é a minha essência. Não consigo não sentir

Prefiro sentir, ainda que seja dor, a ter de ouvir o eco do vazio.

Não sonego amor e tampouco carinho. Eu sou por inteiro. Sinto, logo, demonstro.

Isso me faz vulnerável? Com certeza.  Sempre há gente mal intencionada em aproveitar-se da boa fé e da transparência alheia.

E apesar de quaisquer preços que eu paguei, ou venha a pagar, posso dizer: Eu vivi, realmente.

Não suporto a ideia de tornar-me gélida. 

Já tive grandes paixões, alguns amores e o coração ferido em alguns momentos.

Fui decepcionada vezes sem conta. Traída idem. Tive uma coleção de mágoas e decepções.  Já chorei um Atlântico.

Mas nem toda dor e sofrimento vai apagar a felicidade que senti, o amor sincero e pleno que senti, os momentos, os alegrias, os risos, o amadurecimento e a experiência.

É difícil? É. Ás vezes dói mesmo. Mas a gente se reconstrói, mostra de que é feito, põe a resiliência em prática e segue em frente.

Quando penso em endurecer, lembro-me de algo que li:

“Nunca se arrependa de amar. Perde não aquele que ama, mas aquele que não soube receber o amor.”

Viver é isto. Um ciclo e um aprendizado, nem sempre fácil e quem disse que seria não é?

Há desafios, obstáculos, dores, mas também há prazer, alegria, felicidade, afetos. Como toda moeda que tem dois lados, a vida tem ônus e bônus. Não se pode ter um descartar o outro. Ambos são necessários, nos ensinam e proporcionam, muitas vezes, um crescimento pessoal.

Em suma, viver, se permitir, sentir e se aventurar, é uma ação de risco.

Convido-te a abandonar o medo e abrir o coração.

Não dizem por ai que da vida só se leva a vida que levamos?

Você pode se arrepender? Pode, e provavelmente vai, em alguns momentos.

Mas só tem um jeito de descobrir realmente: Se permitindo.

Ás vezes, é melhor acordar arrependido do que ir dormir na vontade.


Nenhum comentário:

Postar um comentário